Coluna Prestes



Coluna Prestes


A Coluna Prestes tem o nome oficial de Coluna do Centro da Divisão Revolucionária do Noroeste do Rio Grande do Sul. Uma parte dela pode ser vista na foto a cima, onde figuram alguns de seus integrantes. 
Acontece que muita gente pensa que a Coluna Prestes foi a marcha que incursionou pelo Brasil e percorreu os 25 mil Km. Não, essa não foi a Coluna Prestes. A marcha que incursionou pelo Brasil tem outro nome e esse nome é Primeira Divisão Revolucionária.
A verdadeira Coluna Prestes fez o percurso do Rio Grande do Sul até Santa Catarina e desapareceu quando se juntou com a Coluna Miguel Costa. Vamos dar um exemplo muito claro do desaparecimento da Coluna Prestes e da Coluna Miguel Costa, a qual a Coluna Prestes se juntou, para se recuperar. Usaremos o exemplo da natureza no processo da fecundação: o óvulo e o espermatozoide. Quando o espermatozoide se junta ao óvulo eles se fundem em um terceiro corpo. Tanto o óvulo quanto o espermatozoide desaparecem e surge no lugar deles um novo corpo que não pode mais ser desfeito, porque apenas uma tentativa de desfazê-lo fará com que ele desapareça.
Sendo assim, dizer que a Coluna Prestes  - sozinha - incursionou pelo Brasil e que só ela percorreu os 25 mil km é cair em um erro crasso, pois, já foi explicado inúmeras vezes que Miguel Costa, com a sua 3ª Brigada da Divisão São Paulo mais a Coluna do Centro da Divisão Revolucionária do Nordeste do Rio Grande do Sul (Coluna Prestes), juntaram suas forças e juntos, estruturados nesse novo corpo, por essa junção, formaram a Primeira Divisão Revolucionária e fundidos em uma só Divisão, com 1500 homens e mulheres, incursionaram pelo Brasil.
A formação da Primeira Divisão Revolucionária é citada em todos os livros escritos por ex-integrantes dessa Divisão. Todavia, vamos verificar o que esses livros dizem. Partiremos do livro de Lourenço Moreira Lima, que fazia parte do Estado Maior de Miguel Costa e que percorreu os 25 mil km pelo Brasil, inserido nessa Primeira Divisão Revolucionária. Escreveu Moreira Lima: A Coluna ficou constituída da seguinte forma: Comandante, general Miguel Costa. Chefe do E.M., coronel Prestes. Sud-chefe do E.M., Juarez. Secretário, Moreira Lima. Faziam parte do E.M. dos majores Paulo Kruguer, e Geri; capitães Costa e Landucci e tenentes Sady, Nicacio e Morgado.
Piquete do Q.G., tenente Hermínio, que dispunha da 1ª seção de M.P.; Chefe do Corpo de saúde, dr. Athayde. 1º Destacamento, Cordeiro de Faria 2º Destacamento, João Alberto 3º Destacamento, Siqueira Campos, 4º Destacamento Djalma Dutra. Moreira Lima, Lourenço - Marchas e Combates pp 192 193 1º Vol.
Já podemos observar que não temos mais a Coluna Miguel Costa nem a Coluna Prestes. Temos a Primeira Divisão Revolucionária. 
Por que então o nome de Coluna Prestes? Ítalo Landucci escreveu: ...em Benjamim Constant realizou-se a junção das forças gauchas com as remanescentes paulistas, formando-se a Coluna Prestes, assim denominada mais tarde, em homenagem ao chefe do E.M.. o genial Luiz Carlos Prestes, embora o seu comandante fosse o não menos valoroso General Miguel Costa. O chefe ideal da Revolução continuava a ser o Marechal Isidoro Dias Lopes.  Landucci, Ítalo - Cenas e Episódios da Coluna Prestes p. 39.
Vejamos o que disseram os demais autores que foram integrantes da Divisão Revolucionária. Escreveu S. Dias Ferreira: ...foi nas proximidades de Rio Bonito que a coluna passou por nova e definitiva reorganização para que as suas varias unidades tivessem eficiência bastante para poderem operar isoladamente caso fosse necessário. Segundo essa organização ficou ela dividida em quatro destacamentos e uma companhia de metralhadoras pesadas, além do Estado Maior e Corpo de Saúde, pela forma seguinte: Comandante em chefe, general Miguel Costa, chefe do Estado Maior, coronel Luiz Carlos Prestes e sub-chefe do Estado Maior, coronel Juarez Távora. Dias Ferreira, S. - A Marcha da Coluna Prestes pp.141,142.
Passemos a ouvir outro autor revolucionário, o capitão João Silva. ...Durante a noite o gal. Isidoro, Prestes, Miguel Costa, Juarez Távora, J. Alberto, Djalma Soares Dutra, Ari Salgado Freire e inúmeros oficiais superiores, chegaram a uma única conclusão, que foi a seguinte: Miguel Costa ficaria investido do comando da coluna, passando Prestes a chefe do Estado Maior Revolucionário, e então foi criado o 4º Destacamento (antiga Divisão Paulista), assumindo o comando o coronel comissionado Djalma Soares Dutra. Silva, João - Farrapos da Nossa História - p. 56
Seguindo com as narrativas, ouviremos agora o que escreveu João Alberto: ...o dilema era claro. Capitular ante as forças legalistas ou invadir o Paraguai para atingir o Estado de Mato Grosso e prosseguir na luta. A decisão foi unânime. Invadiríamos a república vizinha sem agressão indenizando os prejuízos por ventura causados e respeitando integralmente a propriedade privada. Cuidamos também da reorganização do mando e do reagrupamento das tropas. O major Miguel Costa, comissionado em general, ficou investido do comando da coluna, passando Prestes, como coronel, para chefe do Estado Maior Revolucionário. Foi criado também um novo destacamento, o 4º, com a tropa de Iguaçu, sob o comando do capitão Djalma Dutra, comissionado, como nós, em tenente coronel. Os oficiais sem função incorporaram-se ao Estado Maior de Prestes como seus assistentes. Tudo isso foi publicado em ordem do dia assinado pelo general Miguel Costa, que gostava de deixar escrita as decisões do comando. A reunião começara as 11 horas da noite e terminara as 2 da manhã.
Para finalizar, daremos voz ao antigo sub-Chefe do Estado Maior da Coluna, Juarez Távora: ...Esta cláusula impôs ao marechal Isidoro Lopes o dever indeclinável de exilar-se, afim de, mais facilmente, poder coordenar e dirigir a irrupção de novos movimentos - possíveis, sobretudo, no sul do país. Ao general Miguel Costa coube, então, o comando supremo do punhado de veteranos a quem competia manter sempre aceso, dali por diante, com uma vida errante de sacrifícios obscuros e indescritíveis, o facho rubro da revolução. Tavora, Juarez - A Guisa de Depoimentos Vol. III p. 13
O leitor pode observar com clareza que as linhas escritas acima são verdadeiras, pois se comprovam por esses documentos que autenticam a Miguel Costa a responsabilidade do Comando da Coluna que o marechal Isidoro Dias Lopes, o chefe supremo da Revolução, preferia chamar de Coluna Phenix, porque, como o pássaro da lenda, ressurge das próprias cinzas.
Dos milhares de livros já publicados sobre a Primeira Divisão Revolucionária, podemos dizer que a maioria deles atribui a Prestes - e só a ele - todos os louros dessa marcha. Esses autores esqueceram-se de lembrar que nela existiam mais pessoas, mais heróis, mais colaboradores, pessoas que passaram pelas mesmas privações que Prestes passou, pessoas mais jovens, da mesma idade, ou mais velhos. Esqueceram-se de dizer que durante os quase três anos que passaram juntos, todos eles aniversariaram. Fiz essa menção para reproduzir o que o cronista da Primeira Divisão Revolucionária escreveu sobre Prestes: ...combatendo forças vinte ou trinta vezes superiores a sua pequena legião e sem os recursos necessários para tão dura campanha, atravessou todo o Brasil, sem nunca ter sido vencido. Transpôs centenares de rios caudalosos. Galgou montanhas sem conta. Rompeu florestas impérvias  Rasgou catingas selvagens. Atravessou atoleiros insondáveis e pantanais extensos. Galgou nos pampas rio-grandenses, nos Gerais das altas chapadas mineiras e baianas, nos agrestes das regiões sertanejas do Nordeste. E somente abandonou o teatro de suas façanhas imortais quando a clarividência do seu gênio o aconselhou a suspender a pugna em que se emprenhara. Moreira Lima, Lorenço - Marchas e Combates. p. 139 1º vol.
Tenho certeza que o leitor observou que o autor Lourenço Moreira Lima singularizou todos os créditos à pessoa de Luiz Carlos Prestes.
Se nos basearmos nos milhares de livros escritos sobre a Primeira Divisão Revolucionária - isso inclui algumas teses de doutorado - veremos que esses livros e teses seguem o raciocínio de Moreira Lima. Qual teria sido o motivo de Moreira Lima singularizar os feitos únicos da grande marcha na pessoa de Prestes?
De acordo com as informações deixadas nos livros escritos pelos ex integrantes da Divisão Revolucionária que percorreu o Brasil - e isso inclui o livro de Moreira Lima - registra-se que no ano de 1926, no mês de fevereiro, os revolucionários já haviam cumprido o papel de manter acesa a chama da revolução, pois o objetivo da marcha, que era propaganda da revolução, até  a destituição do presidente da República, Arthur Bernardes, já havia sido alcançado, já que o ex-presidente não ocupava mais o cargo executivo, ele foi substituído por Washington Luiz, que na visão dos revolucionários, faria uma política diferente do presidente anterior.
Não foi esse o plano do novo presidente, que chegou ao ponto de cassar a cidadania brasileira de Miguel Costa, conferida pelo próprio Washington Luiz.
Surgiu então a ideia da continuação da luta. Isidoro Dias Lopes não poderia mais representar a corrente revolucionária por causa da sua idade avançada e o desgaste sofrido pela revolução. Miguel Costa, com a cidadania cassada não poderia representar-lhes, ainda mais por ser da Força Pública Paulista.
Esses impasses levaram os revolucionários a decidirem pela figura do Prestes, que de fato gozava de um grande prestígio dentro da marcha que ele - no posto de Chefe do Estado Maior - se esforçou para mantê-la viva - até atingirem o garimpo de Goias, quando Prestes tentou dissolver a Coluna em pequenos grupos de homens armados. Ele não alcançou seu objetivo porque foi impedido por Miguel Costa. ...o problema tornou-se tão sério que os comandantes de Destacamentos se reuniram para deliberar. Prestes que aceitara, com repugnância, em Minas Gerais, a solução de emigrarmos, defendeu calorosamente a tese da continuação da luta. Dividir-se-ia a Coluna em destacamentos autônomos que, eventualmente se poderiam apoiar. Miguel Costa reagiu vigorosamente a essa ideia "separatista". Sempre cordato com as decisões de Prestes em outros momentos, inflamou-se na defesa da Coluna que, dizia ele, não poderia desaparecer assim ao terminar a gloriosa jornada através do Brasil, para se repartir em bandos armados de idealismo duvidoso (...) o choque entre Miguel Costa e Prestes foi inevitável (...) Todos nós sabíamos que a razão estava com Miguel Costa. A Coluna não podia esfacelar-se, perder a unidade, sem comprometer seriamente o seu objetivo (...) Isso equivaleria a uma destituição de comando. Alberto Lins de Barros, João - Memórias de Um Revolucionário pp. 168 - 169. 
Coube a Luiz Carlos Prestes - depois do encerramento da marcha e da internação na Bolívia - assumir a chefia da revolução. A partir daquele momento, tudo girava em torno do seu nome. Até mesmo a própria coluna da qual ele e os outros participaram.
A história é igual a um monte de folhas brancas, ela representa a soma de todos os dias que passam. Esses dias passados depositam nessas folhas brancas as linhas. São os registros grafados por quem fabrica acontecimentos. Esses acontecimentos fabricados agradam a quem os fabrica e desagrada a outras pessoas. Quem, depois, deposita essas linhas em outras folhas ou conta os acontecimentos fabricados a outros, faz de acordo com o seu entendimento ou o interesse que lhe agrada. É natural que isso desagrade a outras pessoas.
O que ninguém sabia era dos planos secretos de Prestes. Enquanto alguns revolucionários encarregavam-se de preparar a opinião pública para que se desse continuidade a luta que eles vinham travando, Prestes envolvia-se cada vez mais com elementos estrangeiros, que nada de comum tinham com os revolucionários e muito menos com o Brasil. Ou seja: ele já arquitetava implantar no Brasil a ideologia que ele adotara na época em que lhe foi transferido o comando da Revolução. Essa ideologia era o comunismo.
O ato de publicar o seu manifesto comunista de maio de 1930, do seu nome ter sido colocado à frente da Revolução e se estreitado mais à marcha da Coluna, fidelizou a ideia de que a Primeira Divisão Revolucionária teve alguma conotação comunista ou que seus integrantes tivessem se aproximado dessa ideologia. Nenhum deles, com exceção de Prestes, tomou esse rumo. Tanto é que depois do dia 25 de outubro de 1930, dia que a Revolução venceu, mesmo contando com o apoio de quem ela combateu, o Brasil viu-se em um outro patamar. Luiz Carlos Prestes previu que se o Brasil não passasse por uma reforma de base, que só o comunismo poderia fazer, o país seria simplesmente  trocado das mãos de alguns políticos para as mãos de outros políticos e de nada adiantaria ele apoiar a Revolução de 1930, que ele chamava de revolução burguesa.
A história demonstrou o curso que o Brasil tomou com o apoio dos revolucionários de 5 de julho de 1922, 1924, da Primeira Divisão Revolucionária e de 1930. Mais uma vez, com exceção de Prestes, que em 1935, ainda teimava em implantar no Brasil um sistema que nada tem a ver com a nossa origem, o nosso clima, a nossa cultura, levou à sua derrota e a derrota de quem o apoiou.
Por isso não podemos jamais chamar a marcha que incursionou pelo Brasil de Coluna Prestes, primeiro porque não foi só a coluna do Prestes que marchou 25 mil km, a coluna Miguel Costa também marchou os mesmos 25 mil km, segundo, porque chamar a Primeira Divisão Revolucionária de Coluna Prestes é o mesmo que dizer que ela era comunista tingindo o seu verdadeiro objetivo que era a democracia. 


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Yuri Abyaza Costa
Jornalista, pesquisa a Revolução de 1924 há mais de 20 anos. Autor do livro Miguel Costa Um Herói Brasileiro. Colaborador do Museu de Polícia Militar do Estado de São Paulo. Neto do General Miguel Costa, trabalha para manter viva a memória do avô.